Falso deus

Uma notícia recente me causou certo espanto, espanto tanto que decidi escrever um texto quase normal. Refiro-me ao garoto sírio, encontrado comendo areia num resort turco. Modo de falar, só come quem está vivo. Um cadaverzinho, jogado na areia, mais perdido que chinelo de paulista em praia carioca, ou estirado, garoto-trapo, uma toalha de banho ensopando a cama, aliás, pior, pois, veja, a cama é quentinha. Um cadaverzinho, chinelo novo, toalha recente, ainda no primário.

Foi um grande choque sair da minha experiência confortável de análise do trailer do filme Dawn of Justice – tudo quanto estiver em itálico neste texto é do trailer e me deparar com uma brutalidade antinatural. A sina do escritor medíocre, sim, mas escritor ­é ter que escrever tudo de tudo, analisar tudo de tudo. Não posso, nem quero, fugir. Tentarei expressar como essas duas experiências se intercalaram na minha mente.

– É de fato surpreendente que o homem mais poderoso do mundo seja uma figura controversa?

Muito levantamento foi feito acerca da utilidade prática dos órgãos internacionais no combate a desigualdades sociais, fome, miséria, violência e todos os males desse mundo enfermo. O fato é, apesar de ter inspirado e ainda inspirar alguma esperança de união, estabilidade e paz no mundo contemporâneo, a maior organização internacional, a ONU, e seus segmentos ainda são duramente criticados diariamente. Seja por omissão, ou por ações dificilmente justificáveis, até irracionais; seja pela desilusão originada da manutenção do modelo hierárquico de influência ao longo dos últimos setenta anos.

– Nós, enquanto população global, procuramos incessantemente por um salvador.

O messianismo é uma patologia recorrente na história humana, desde a fundação das primeiras religiões, egípcia, judaica, grega, romana, católica; às monarquias, egípcia novamente , inglesa, japonesa, russa, francesa; às crenças despertadas pelo medo nesse curso, sebastianismo português, bem como a cultura política brasileira de aguardar um grande herói que possa reger o país e livrá-lo a um tempo de todos os problemas. Estaria a ação internacional imune a esse vírus medonho? Bem improvável, não? A esperança global no “primeiro mundo”, nos países desenvolvidos, cabeças da ONU, parece o apelo de uma criança carente precisando de uma força maior que a ajude a lidar com a realidade, ou um homem no deserto que necessita de um pequeno príncipe.

–Estamos falando de um ser cuja mera existência desafia nosso senso de prioridade.

A euforia gerada pela globalização fenômeno que ainda apoio , aliada à insignificância aparente de uma ação individual num coletivo tão descomunal, diverso e apavorante como o mundo, nos cegou para a relevância de nossas próprias ações em nosso meio social. Agimos, sim, como irresponsáveis, mas não o somos, não fugimos, via de regra, à imputabilidade. Somos despreocupados. Aliás, somos demasiado preocupados com o que nos convém. A futilidade alienante impera, talk shows, reality shows, celebrity shows, show shows, programas culinários que já repetem receitas. Ou então nos enclausuramos em trabalho, como dita a cultura americana atual, o workaholic. “Todo trabalho aliena”, a frase não é minha, mas até que é boazinha. Todo e qualquer meio de nos desobrigarmos do mundo.

– Seres humanos têm um histórico horrível de submissão a pessoas poderosas.

E, desse modo, nos resignamos. Conformamo-nos em aguardar. Esperar que atirem, que degolem, que vetem, que votem, que façam, desfaçam, virem o mundo do avesso, sem darmos nossa opinião. Não convém. Afinal, veja o custo de ter uma opinião, ou você degola, o é degolado.

– Poder corrompe, poder absoluto corrompe absolutamente.

Primeiro, o aforismo é de Montesquieu, sugerindo a segmentação do poder. As grandes potências estão em cheque, não conhecem a via diplomática para lidar com o caos. O caos não discute, my dear. O caos não pensa, só age, às pressas. Mau presságio. O caos é um trem desgovernado, bate de frente com o templo de Bel. O caos é um anarquista e um iconoclasta. O caos é revolucionário. O caos é o resultado da ditadura do reacionário. A mudança é inerente à sociedade, se o sinal não está verde, ela atropela a velhinha, sua sacola de compras e seu carrinho de mão retrô. “É impossível ser sem ser revolucionário.” Quando se tenta cingir a educação para evitar a revolução, congelar o momento histórico, meu bem, que arregaço! É uma revolução de idiotas, dessa vez, idiotas armados. Mas idiotas com um ponto argumentável. Quedê Pátria Basca? Se deu Euskadi. Quedê Palestina? Quedê?

– Talvez ele seja um bom samaritano, mas não somos mais tão ingênuos, ou somos?

Não, não somos mais tão ingênuos, apesar de aparentarmos, apesar de querermos ser. E em nossa inconsciente consciência de mundo elegemos um deus e um demônio, um bem e um mal. Maniqueísmo sempre dá certo, afinal. Mas se é assim, também quero eleger um deus. Quero eleger-me Deus! Sou? Sou, mas sou um deus falso. Acreditar que o “Planeta Terra do Norte” sabe lidar com o mundo não faz da mentira mais verdade. Faz-se necessário mais do que um zilhão de dólares ao léu e umas palavras bonitas num papel para consertar o mundo, boas intenções são bem vindas, mas a porta de saída é a porta de entrada.

 

–Demônios não vêm do Inferno abaixo, mas do Céu acima de nós.

Todo ato possui agente e todo agente é culpado. E certo é que os culpados não somos nós. Pelo menos, assim foi acordado. Se não somos nós e ainda mais certamente não é nosso deus, quem resta? Exato! O garoto pobre, saído de orfanato. Foi ele mesmo, nascido ontem, quem demoliu as torres gêmeas. Vai vender bala, desgraçado! Depois reclamam que ele atire as balas… digo, reclamam se forem alvejados. Se o alvo for outro pobre meio pardo, é a natureza operando sua magia. Assim foi acordado. Acordado? Você só dorme, filho da puta! Acorde! A vida é filme, não é retrato. Quem não se mexe é retardatário. Quem faz a arma é o patrão, não o empregado.

– Todos estão tão deslumbrados com o que ele pode fazer que ninguém se pergunta o que ele deve fazer.

Então, essa tal de ONU, ela pode salvar o mundo? Ô, se pode! A ONU pode tudo. A ONU, a OTAN e o Unicórnio Raimundo. Os três podem tudo. Por que Raimundo? Os três são rimas, nenhum é solução. Eu posso escrever, mas de que adianta se não o fizer? Se meus interesses têm interesses e, nesses interesses, ninguém mete a colher, de que adianta que haja mundo?

– É assim que começa: a febre, a raiva, a sensação de impotência, tornando cruéis os bons.

Mas eu já vi esse filme. Digo… bom, foda-se, você tem cérebro, você entendeu. É, my friend, você não é o primeiro herói. O Estado Islâmico também tinha uma boa ideia, veio cheio de boas intenções, mas o enredo ainda é uma merda. Tem gente sofrendo com uma guerra que nem sabe se quer. Gente que, quando foge, é fugitivo de guerra. DE-GUER-RA! Diretrizes da ONU: PAZ MUNDIAL! Pois é. Para os mais versados na história em quadrinhos, deixo aqui a analogia: o Estado Islâmico é precisamente os “Filhos do Batman”. Quanto tempo até a diplomacia não se sustentar, até o mundo se cansar? É o que o caos opera. É o que o caos faz quando fica incubado por um pensamento conservador. Quando estoura, se alastra.

 

Mas ninguém se importa de fato, com esses conflitos, apenas levantam uma sobrancelha ou outra quando um barco vira e um pessoal se afoga, quando um jornalista ou um arqueólogo são degolados, quando umas estátuas e uns templos são destruídos, neste último, o arco da sobrancelha é até agudo, por ser considerado crime de guerra. Mas como conferir relevância a um estalinho a meio mundo de distância? Afinal de contas, não é você quem vai perder a cabeça nessa brincadeira, você não sangra com essa guerra. Você sangra? Vai sangrar.

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