O PRIMEIRO SEGUNDO-LUGAR DE AURÉLIO AUGUSTO ÁUREO

Uma cornucópia na mesinha de centro é tudo que havia na cabeça de Aurélio naquele momento. Asfixiante, a visão daquele símbolo queimava os olhos da sua mente. Lá estava toda a sua vida, todo o seu tesouro. Tudo exposto em uma mesinha de centro marmórea, insensível à grandiosidade da obra que sustentava.

E que obra! Quantos louros, nem sabia contar. Coletânea de uma vida de esforços econômicos. Que obra? Se for escultura, quebra, se for pintura, rasga, se for litogravura, ninguém se importa, e se for vida, morre. Que obra!

Ouvia muito essa expressão: “Que obra!” Sua posição socioeconômica lhe permitia alguns luxos, um deles era a arte. Gostava de esculpir, gostava de projetar edifícios. Mas tudo quanto fosse sólido em sua vida acabava em “Que obra! Que obra! Que obra! Que obra!” Em meio à quebradeira passava os dias, tentando construir algo de sólido. Sua rotina era esculpir e cuspir.     Esse estigma helenístico herdara de seus antepassados, de muitos Augustos vinha um sangue grosso como de touro, sangue denso como ouro.

E que obra! Um chifre de ouro maciço, erguido num pedestal branco. Não se recordava bem se realmente tinha sido ele a erguer o altar em que sua vida era enaltecida, mas era nesse altar que a expunha. E quem expõe algo, geralmente, o faz para que alguém veja. Mas quem seria suficientemente experiente para avaliar aquela bela obra?

E que obra! Uma pena não haver quem pudesse realmente admirá-la, mas observá-la, isso, sim. Outras tantas pessoas que olhavam de fora das janelas do cômodo em que estava exposta a cornucópia. Outras tantas pessoas com seus próprios pedestais e suas próprias obras, mas nenhuma tão obra quanto a cornucópia. Variavam em número, mas as obras dos outros eram em grande parte os filhos.

E que obras! Contudo, os filhos dos outros não eram obras como a cornucópia, a prole de terceiros era vazia, enquanto a cornucópia era recheada com duas belas e abastardas crianças. A maior era Alberto Áureo, a menor era Ariana, AAA. Eram crias da mais fina porca, fina e gorda de leite farto, daquelas que Aurélio come só uma vez por ano, no Natal, ocasião em que recheava a barriga da leitoa. E assim nasceram suas mais belas obras.

E que obras! Não eram obras como a cornucópia, mas sem dúvida eram eficientes. Eram ainda um pouco confusos. Quando completou a maioridade, Alberto já planejava seus estudos de economia na faculdade de Coimbra, a única faculdade na face do planeta. Infelizmente Alberto ainda não sabia disso e teimava em ter dificuldade com cálculo, e teimava em riscar alguns quadros com ferocidade, e teclava sempre a mesma tecla na máquina de escrever, e dizia que inventava a arte, e vivia de trás para frente, e dizia que fazia parte, mas não tinha permissão de completar sua maior obra.

E que obra! Não era, claro, páreo para a cornucópia, mas a criança até parecia ter talento. Ah, se Aurélio soubesse da sorte que tinha, quanta era a graça, de estar na presença de Alberto, o poeta da praça. A filha, por Deus, já era bem resolvida. Sabia que queria se casar com o senhor barão de Domduque, embora namorasse um poeta boa-praça. Era uma artista das teclas também, das teclas do piano, como convém à aristocracia que trabalha. Chegou até a compor uma obra.

E que obra! Lembrava muito a mãe, Dona Lady. Dona Lady já se chegou às artes, mas faz muito tempo. Diga-se de passagem, se a cornucópia pertence a Aurélio, a primeira metade foi presente de Dona Lady. Ainda se reunia com as amigas e debatia sobre livros, livros de poemas recentes, de algum militar sob o signo de Poeta Praça. Apreciava a agressividade e a subversividade do autor, encontrava algo na obra, algo que seu filho jamais teria. E trocava de pele ao gosto do ambiente e destilava seu veneno. Uma que obra!

Mas esse instante de reflexão fez com que Aurélio percebesse seu devido lugar, um pouco abaixo das nuvens, um pouco acima do mar. Desse modo, quando o projétil veio, não sentiu o impacto. O sangue espalhado na cornucópia era a metafagia, o vermelho do ouro, o dourado do touro. Abatido como sua obra.

E que obra! O sangue do touro, o leite da vaca gorda, o sentimento do bezerro, a carne da novilha, todos esperando para virar vitela e encosto de cadeira, todos sozinhos na tarantela. É um cenário estático, frio, apático, vivendo de aparência e superficialidade, como uma obra de arte.

E que obra!

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