UM CU .40

Sabe, o difícil do suicídio é ficar mirando, não é engatilhar, não é puxar o gatilho, não é cair no chão. Ou a formulação mais correta: “a dificuldade maior do processo do suicídio se encontra na etapa da ação voluntária, não da involuntária.” Mas também, quem vai ler e se importar se os mortos escrevem um verbo ou uma locução? Afinal, os mortos, loucos são. Enfim, a maior dificuldade justamente é fazer mira, a locução, tão mal vista e tão mal quista.

A locução é o que vai matar mais do que a morte ortônima, pois toda locução que se faz presente está sendo notada, está sendo incômoda. Ninguém hesita em passar a gilete por medo do que não terá. Quem quer ter não compra a gilete, se compra, já morreu para si. O leve descontrole do músculo zigomático e a distensão no lombrical do indicador são sintomas de uma patologia humana universal, o passado.

O suicida é um ser cativo, encarcerado pelos que passaram. Tenta vencer grilhões de aço espesso com sua gilete. Um aço feito de memórias. Cada elo é seu pai, sua madrasta, sua mãe, sua namorada, seu ex, seu filho bastardo, seus amigos, mas principalmente, seu cachorro. Não, suicidas não têm gatos. Um suicida já é naturalmente ignorado por todos, não precisa adquirir ainda outro ignorante. Seu cachorro é, provavelmente, o único laço que ele deu na corda em seu pescoço, os outros foram feitos pela sociedade e suas tendências e suas necessidades e seu ritmo e seus diversos tons de cinza.

A parte difícil não é escrever um bilhete, é precisar escolher as palavras. Um suicida, veja Getúlio Vargas, não deixa para trás quaisquer palavras com um rancor qualquer, ele deixa a obra de sua vida. Um bilhete de suicídio é a descrição mais detalhada da psique, não do suicida, mas da persona que carregou por toda a vida. Se admite a homossexualidade, ou um filho externo ao casamento, não é por emolumento, é porque a quebra de expectativa caracteriza a raiz do elemento cômico. Um suicídio pacato é antinatural.

Quando titubeia ao sentir o gosto do cu que há no fim do cano da arma, é por excesso de passado. É por uma mãe que queria um advogado e um pai que queria um médico, um tio que queria um analista e uma tia que queria um jogador de futebol, uma avó que queria um engenheiro e um papagaio que queria um dono, uma ex que queria um namorado e uma namorada que queria um marido (ou um ex), um amigo que o queria num show e um filho que queria um pai. E quem sobrou? O cachorro, porque o cachorro só quer carinho. O cachorro não quer diploma, não quer coleira, não quer emolumento, o cachorro é o próprio sujeito. Pelo canino não se acovarda no cu do cano.

Resolvidos os empasses, puxa o gatilho, passa a lâmina, chuta a cadeira, chuta o balde. Tudo fácil, tudo agradável, tudo verbo simples. Depois a gravidade faz seu trabalho que é não deixar o sujeito boiar, e o afoga em suas próprias mágoas, que é o que ele queria mesmo. Não quer mais? Não, não quer, quis até fazer mira, então morreu. Mas morreu com nome, não com título. Morreu João, não morreu Doutor, não morreu marido, não morreu pai, não morreu filho (este, certo que não morria), não morreu dono nem empregado. Mas morreu com o cachorro, que zelou pelo seu corpo até o IML chegar. Puta merda, que cachorro!

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