UFANATISMO

Quando a casa está em festa, a criança não chora. Quando criança não chora? Nunca. Então a casa nunca está em festa? Errado, está sempre, em polvorosa. E se mais retumbante for o plangor, mais retumbante será o festejo – ou seria o contrário? Somente que o pranto não se escuta. Não se ouve o choro e não se vê o ar.

A criança sabe por que chora e acha justo chorar. Só a criança chora? Não, todos choram, a criança não sabe disfarçar. Chora alto, incomoda. E a juventude retrógrada que um dia já foi jovem já não sabe ouvir a verdade, desaprendeu, foi educada a disfarçar. Na escola da mentira, aprenderam a interpretar e desaprenderam a interpretar. Porque a criança sabe por que chora, mas não sabe expressar. Não sabe? Sabe. É a casa de tijolos; tijolos surdos, tijolos mudos, tijolos cegos, tijolos frios, tijolos que não querem estar juntos, mas assim estão prostrados, por uma pesada argamassa; que não sabe interpretar.

Essa argamassa como uma substância aditiva. Essa substância aditiva como uma venda nos intelectos. Essa substância aditiva como tampões nos cérebros. Essa substância aditiva como mordaças na alma. Essa substância aditiva como uma lâmina de papel vegetal, definindo como tudo deve ser. Essa substância aditiva como uma obra deturpada, uma que não dá forma aos sentimentos, uma que os sentimentos deforma. Essa névoa pesada e essa leveza da tempestade tropical. Sublimidades humanas, divinas mundanidades.

A criança chora porque seus olhos ainda não estão bons, digo, ainda não estão ruins. A criança vê contornos esfumaçados. Contornos esfumaçados são a cuca e o bicho papão. Mas agora são os pais. São? É o que dizem. Quem? Os pais. São? Não, chora a criança. Quem? A cuca e o bicho papão! chora a criança. Quem diz que a criança não vê verdades? Os pais. Quem? Os pa… a cuca e o bicho papão.

Um dia o choro acaba. Acaba, então, a festa, por não ter o que disfarçar. A criança, agora, sabe interpretar. Os adultos, agora, sabem que choram. A cuca e o bicho papão, agora, descobriram que são pais. A casa, agora, sabe que é fria; mais que os salões, marmórea. Os tijolos sabem que não são, nem com argamassa, parede. A névoa, agora, sabe que é; mais que a tempestade, espessa. O agora, agora, sabe que não é; mais que o nunca, nunca foi. Talvez nunca seja nunca um dia; o sempre, sempre o será.

Isso será sempre, até a próxima criança chegar.

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