PASSADO PERFEITO

Meu amado Otário Otávio,

o tempo do verão é bem pequeno e todo carnaval tem seu fim. Não, querido, não gosto de Shakespeare, e certamente não comecei a ouvir Los Hermanos – embora seja música de fim de namoro. Mas sabe do que gosto? Gosto de Vinicius de Moraes. E ele disse uma vez: “que seja eterno enquanto dure.” E… bom, para muita gente, a nossa relação foi eterna enquanto durou. Foi eterna pro filho da Zuzu e pro Herzog. Mas você tem que aceitar, querido, tem vezes que a dita dura e tem vezes que não. Não deve ser imortal, posto que é chama.

Não sabe como vejo lisonjeiros seus encantos para mim, suas longas cartas para ninguém, suas marchas com Deus para a família. Mas acabou. Não acabou o amor, mas acabou, amor. Esteja certo de que o mundo nunca se esquecerá daquele dia, que, para mim, pareceu vinte e um anos. Aquele pessoal que não gostava da gente achava uma tortura nos ver passeando, nossa caranga a óleo diesel os fazia perder o ar, era chocante, seus mundos viravam de cabeça para baixo no nosso pau de arara, e eles eram as ararinhas azuis, porque estavam em extinção.

Mas hoje vejo que nós fomos os animais. Eu, um grande elefante branco, você, um avestruz. Sim, um avestruz. Tinha medo do que estava acontecendo no mundo. Decidiu fugir, se esconder, e enfiou a cabeça no chão, fingindo não ver seu mundo de certezas caindo ao chão – sim, o mesmo mundo, o mesmo chão –, fingindo não ouvir o choro dos filhos e das mães. Filho da mãe. Desculpe, querido, não o quis ofender. Mas fizemos coisas horríveis juntos.

Fomos piores do que Bonnie e Clyde. Pelo menos os mais prejudicados pelos dois foram os mesmos que eles mataram. Conosco não. Nossas piores criações foram justamente os que deixamos viver, os que mimamos e acalentamos, nossos filhos. Cresceram cegos e surdos, como o pai – a avestruzice é genética. Cresceram com um ego inflado como o da mãe. Patriotas. Idiotas. Mesma terminação, não deve ser coincidência.

Tenho uma confissão a fazer, tive seis homens e alguns rolos durante nosso namoro. Teve o Branco, era bonitinho, sonhador, me idealizava, escrevia umas cartas com sonetos e assinava: “eternamente seu, B.” E também o Costa – por causa daquele muro de músculos que eram as costas dele –, ele chamou um amigo, um tal de Silva, a partir do terceiro encontro, nome comum, sujeito comum, mas me fodeu como ninguém, fazia um negócio estranho e eu já dizia: “AI. AI. AI. AI. AI.” Depois veio o Garrastazu, moreno angolano, chamava de Azul. Aí conheci o Geisel, chamava assim porque me fazia parecer um geiser. E o Geisel me apresentou o Figuinho, sabe de onde vem o nome, mas ele foi o mais carinhoso, tinha esse movimento pendular e eu me abria para ele como para mais ninguém. Essa era a confissão.

No mais, tudo bem. Estou numa clínica de repouso, aguardando a morte no ostracismo. Ostracismo, exílio, boas lembranças. Mas sinto umas dores de estômago. Maldita dor! Ah, fui redundante. Todo ditador é mau.

E falando em dono, soube que tem uma nova dona pro seu coração, uma tal de Dona Mocreia. Brincadeira, querido, sei que o nome dela é D. Mocracia. Sei que serão muito felizes juntos, embora não perceba ainda. Mas sei também que nunca deixará de me amar, não é mesmo? Parece que seu coração terá sempre duas donas. Porém me contento em ser a outra.

 

Beijos e abraços, para nunca mais sua,

D. Tadura.

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